Resposta à coluna de Vange Leonel na edição 106 da Fórum

A coluna da Vange Leonel você lê aqui. Pessoalmente, recomendo o uso de um saco de vômito.

Lamentável a cegueira e aparente desinformação da colunista, perceptível desde o segundo parágrafo do artigo, quando erroneamente informa que o Escola Sem Homofobia foi “temporariamente engavetado” pelo Governo Dilma, isso quando sabemos que não apenas o ex-ministro Haddad já disse que CONCORDAVA COM A BANCADA EVANGÉLICA em suas objeções ao Kit (seja por convicção ou por conveniência política) e que o atual ministro Mercadante já deixou claro que considera que “material didático não combate homofobia”[sic].

Desnecessário fazer maiores comentários sobre as “concessões aos conservadores” no sentido de aprovar uma lei “com avanços possíveis” contra a homofobia. Fico imaginando se os judeus e negros, ao lutarem por leis anti-racismo, tentaram a tática da negociação com grupos hostis à sua causa, como a Ku Klux Klan ou os neonazistas.

Qualquer um que tenha se dedicado a estudar minimamente as crendices dos fanáticos da bancada evangélica sabe que eles estão dispostos a conceder aos LGBTs apenas o tratamento prescrito por sua interpretação fundamentalista da Bíblia: a “conversão” ou punição, podendo ser esta no Além-Vida “HOMOSSEXUAIS VÃO ARDER NO INFERNO” ou no Aquém, mesmo, através do impedimento do exercício da cidadania plena por esses grupos ou, mais idealmente, através do sancionamento da pena prescrita em seus livros sagrados (de acordo com Levítico, apedrejamento). Para quem duvida, basta lembrar que recentemente o deputado-pastor Marco Feliciano foi à tribuna da Câmara criticar o Reino Unido por praticar sanções contra a ungida nação de Uganda para defender a “ditadura gay”. Uganda, caso a colunista não saiba, é palco da disputa de defensores dos direitos humanos e de fundamentalistas evangélicos, onde há um movimento (apoiado pelos colegas de fé do referido deputado naquele país) pela aprovação de leis prevendo punições para a homossexualidade tais como a morte ou o impedimento de que homossexuais recebam tratamento contra o HIV.

Quanto a falar nas “boas intenções da ministra Maria do Rosário” a minha primeira reação foi de riso, principalmente considerando que o último ato notório da querida ministra foi tentar censurar o relatório sobre as violações dos Direitos Humanos na Terra do Meio, Pará, liderado pelo jornalista Leonardo Sakamoto, apenas porque esse trabalho mencionou as inúmeras violações desses direitos provocadas nessa região pela obra de Belo Monte, menina dos olhos do Governo Dilma.

Essas “boas intenções” da ministra se tornam ainda mais questionáveis quando se sabe que a dita-cuja já deixou bem claro que considera que a discussão de direitos civis dos LGBTs como a união civil e o casamento “cabe exclusivamente ao Judiciário”, postura COVARDE de uma representante do poder Executivo que se torna ainda mais vil diante do exemplo no sentido contrário que tivemos na nossa vizinha Argentina, onde a presidenta Cristina Kirchner se empenhou PESSOALMENTE pela aprovação do Casamento Igualitário.

Agora, a parte mais lamentável de todo esse artigo, em que pese a aparente desinformação em que ele foi escrito, é o esforço da colunista em responsabilizar a MILITÂNCIA LGBT DE FATO (a não comprometida por interesses pessoais e/ou partidários em sua necessidade de defender o governo) por uma suposta radicalização do movimento e pela “destruição de pontes”, além de “copiar a prática dos fundamentalistas”.

Quem dera, Vange Leonel, o movimento LGBT estivesse em condições de copiar práticas dos fundamentalistas. Práticas como a de cooptar fiéis em igrejas e colocá-los em ônibus (pagos com o próprio dinheiro desses fiéis, via dízimo) para levá-los à ALERJ e lotar as galerias para fazer pressão contra uma PEC que incluiria “orientação sexual” como uma forma de preconceito proibida na Constituição do Estado do Rio de Janeiro. Práticas como eleger uma bancada que em troca de seus votos exige (E CONSEGUE) que uma chefe de Estado condene combate à homofobia como PROPAGANDA DE OPÇÃO SEXUAL e se mantenha absolutamente omissa em meio a uma escalada de crimes de ódio contra homossexuais sem igual nas Américas no último ano. Práticas como obter ministério para essa bancada ao mesmo tempo em que seus deputados chamam uma ministra de “aborteira” e “sodoministra”. Quem dera, Vange Leonel, a militância LGBT tivesse o poder para exercer práticas como as usadas pelos fundamentalistas.

Não porque a militância LGBT fosse se rebaixar à mesquinha busca por poder e controle da sociedade que é o objetivo declarado dos fundamentalistas, Vange Leonel, porque a nossa luta nunca foi essa. A única coisa que nós pedimos são direitos iguais e sermos tratados como cidadãos, Vange Leonel. E vem sendo isso que o governo que você defende como portador de “boas intenções”, Vange Leonel, nos nega sistematicamente.

Vange Leonel nos fala do seu temor pela “destruição de pontes”, ao que se pergunta: QUE PONTES, VANGE LEONEL? A colunista poderia citar uma liderança LGBT de alcance nacional que tenha sido recebida pela presidente Dilma no Planalto ou Alvorada até agora? Mostrar uma foto de Dilma Rousseff ao lado de Jean Wyllys, Toni Reis ou mesmo dela própria, Vange Leonel? Porque fotos de Dilma Rousseff ao lado de Marisa Lobo (a autointitulada “psicóloga cristã”) já vimos. Ao lado de Crivella, já vimos. Que Dilma Rousseff ligou por quinze minutos para Silas Malafaia implorando pelo apoio dele nas eleições de 2010 nós sabemos porque o próprio disse isso ao The New York Times em entrevista nunca desmentida pela Presidência, Vange Leonel. De modo que confesso minha curiosidade em saber onde está essa mítica ponte enxergada por Vange Leonel que não se encontra em lugar algum.

Vange Leonel tem medo de que “a militância parta para a luta feroz”. Pois eu digo que a militância tem a OBRIGAÇÃO de partir para a “luta feroz” contra grupos que se dedicam a incentivar o ódio, a intolerância e desumanização do Outro como meios de angariar mais poder sobre a sociedade, sob o olhar complacente, se não cúmplice, de um governo que vem se comportando da forma mais abjeta diante de uma militância que tanto fez em prol de sua eleição. De um governo traidor, em resumo. E essa obrigação não é apenas devida aos LGBTs, mas ao país como um todo. Essa tática de escolher um grupo como bode expiatório para os males da sociedade já foi utilizada outras vezes na História e todos sabem que em boa coisa isso nunca acaba. Primeiro os fanáticos evangélicos perseguem os LGBTs. Depois serão os ateus e praticantes de religiões afro-brasileiras. Quando pararem para olhar, já vão estar cuspindo na cara dos católicos. Quem chutou uma imagem de Aparecida outro dia mesmo?

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Comentários

  • Lippe  On 19 de março de 2012 at 0:57

    Quem dera o povo LGBT tivesse um deus ao seu lado para confrontar seus inimigos. Ah esqueci, SATANÁS.

    • Alex Catarino (@4lex78)  On 19 de março de 2012 at 1:49

      Lippe, se o Deus que os Cristãos (Evangélicos em particular) acreditam é justo e cheio de amor como eles clamam, então, e com certeza, ele está do lado do “povo LGBT” (ou melhor, dos nossos compatriotas Brasileiros) e não do lado daqueles que têm discurso de ódio como os líderes evangélicos.

  • felipe  On 19 de março de 2012 at 7:49

    Ora, vcs se esquecem que o raivosos religiosos têm bancada no congresso! suprapartidária.
    Então, ao atacar o governo, deveria atacar o congresso junto. É muita inocência culpar o governo, o político do partido, mas se esquecer que a bancada “da família” consegue juntar um grande número de votos e votar contra qualquer projeto contra a homofobia.
    E, sim, está surgindo um discurso de ódio por parte do movimento LGBT. A começar com os ataques à presidenta, aos líderes religiosos, a qualquer panaca fanático. Eu vejo isso todo dia, ataque de ódios de todos os lados.
    Mas quem tem mais força é quem faz fortuna com o dinheiro dos fiéis e banca campanha política… essa é a diferença.
    Podem me chamar de pelego, governista, baba-ovo da vange. Mas isso é fato, o discurso do ódio está surgindo, sim!

    • Chico Aragão  On 19 de março de 2012 at 11:10

      Quem está ignorando a presença de fundamentalistas evangélicos na base governista do Congresso, Felipe?

  • felipe  On 19 de março de 2012 at 7:51

    Corringindo: o discurso de ódio religioso já existia, os ataques contra homossexuais também. Mas digo um discurso de ódio “banalizado”, por todos os lados.

    • Chico Aragão  On 19 de março de 2012 at 11:13

      Onde está o “discurso de ódio” dos LGBTs contra os evangélicos, Felipe? Por acaso gays estão atacando pastores no meio da rua e invadindo igrejas para realizar surubas ao vivo? Gays estão exigindo que o governo negue direitos civis aos evangélicos? É tão cômodo culpar as vítimas por serem oprimidas, não é mesmo?

  • Alex  On 19 de março de 2012 at 15:23

    Iria até responder às provocações do Lippe. Mas, quando notei que ele acredita que o deus dos homossexuais é o Satanás, vi que, de nós, pessoas como ele só merece desprezo. Ao menos, percebemos que este “amor cristão” que tantos apregoam com relação aos gays não passa de um marketing falso e inconsistente.

  • Alex  On 19 de março de 2012 at 15:29

    ERRATA: “pessoas como ele só MERECEM desprezo”

    • Lippe  On 19 de março de 2012 at 21:29

      Alex eu não estava fazendo provocação alguma, apenas fiz uma ironia, afinal os evangélicos vivem se gabando que deus está ao seu lado como desculpa para repreender os outros

  • Daniel Rodrigues  On 25 de março de 2012 at 1:04

    Francamente há muito tempo estou farto cheio de ver a discussão LGBT reduzir-se à dicotomia anti-governo x pró-governo AO INVÉS de uma defesa pró-LGBT. Só o que se vê é petista roxo defendendo o governo X PSDBistas e direitas em geral ressentidos de não terem o poder federal tentando usar a questão LGBT unica e exclusivamente para se opor ao governo.

    Urge a necessidade de uma militância supra-partidária que coloque a questão LGBT em primeiro lugar. Ou melhor, que tenha a questão LGBT como o ÚNICO lugar, e que se fodam os direitistas e esquerdistas dissimulados.

    Enquanto o movimento se reduzir à escolha do menos pior entre Dilma+Crivela ou Serra+Malafaia não havendo, neste caso, nenhuma força política para pressionar um ou outro que se estabeleça, não haverá NADA além de retrocesso e estagnação. Foi a este estado de coisas que a militância partidária de direita e de esquerda nos trouxe.

  • Laura  On 13 de janeiro de 2013 at 17:25

    Em Contagem/MG o atual secretário de Direitos Humanos de um governo dito de esquerda é um Pastor!!!!!

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